Um estudo sobre o futuro dos serviços financeiros, conduzido pela Cognizant e Red Associates, observou que a relação da maioria das pessoas com o dinheiro é muito diferente dependendo do contexto. De acordo com a pesquisa, podemos classificar o dinheiro de duas formas:

  • “Slow money”: refere-se aos nossos gastos e investimentos de longo prazo, como financiamento imobiliário e previdência privada. Nesses casos, normalmente buscamos aconselhamento, avaliamos diversas opções e demoramos um bom tempo até chegar a uma decisão.

  • “Fast money”: está relacionado com as nossas despesas rotineiras, como compras no supermercado, abastecimento do carro, refeições fora de casa, etc. Nessas situações, buscamos rapidez, comodidade e baixo custo. Em outras palavras, não queremos perder tempo nem energia para realizar esse tipo de transação financeira.

Nos últimos anos, uma série de inovações tecnológicas teve como objetivo reduzir a “fricção” associada com as transações do tipo “fast money”. Por exemplo, pagamentos por aproximação, via NFC ou QR-code, já fazem parte da realidade de muitas pessoas no Brasil.

Apesar de proporcionar maior conveniência e praticidade, essas tecnologias por aproximação não conseguem eliminar totalmente a fricção dos pagamentos, pois ainda precisamos usar o celular ou a carteira no momento da compra. Ou seja, não são capazes de oferecer uma experiência de “pagamento invisível”.

O pagamento invisível acontece quando não precisamos executar nenhuma ação específica relacionada com o ato de pagar. Provavelmente, o caso mais conhecido de pagamento invisível é o Uber.

O pagamento invisível acontece quando não precisamos executar nenhuma ação específica relacionada com o ato de pagar. Provavelmente, o caso mais conhecido de pagamento invisível é o Uber. Ao utilizar o app, escolhemos o destino, aguardamos o carro, fazemos a viagem e, ao chegar, simplesmente descemos do veículo. Essa “mágica” é possível por meio do uso das carteiras virtuais (“e-wallets”), popularizadas pelo PayPal, que são cada vez mais comuns em aplicativos móveis e sites de comércio eletrônico.

Mais recentemente, empresas vêm combinando as e-wallets com outras tecnologias para oferecer experiências inovadoras de pagamento invisível. Conversar com assistentes virtuais (Alexa, Siri, Cortana, …) e fazer compras online enquanto estamos cozinhando ou fazendo outra atividade não é mais uma cena de ficção científica.

No mundo do varejo físico, os desafios são maiores, mas já existem casos bem-sucedidos de pagamentos invisíveis. A Amazon Go, rede de lojas da gigante norte-americana, utiliza câmeras, algoritmos de reconhecimento de imagem e sensores RFID para proporcionar a experiência “just walk out shopping”: entre no supermercado, escolha e coloque os produtos na sua sacola e simplesmente vá embora, sem passar por um caixa ou “self checkout”.

A tecnologia embarcada nessas lojas ainda não está acessível para a grande maioria dos varejistas (em um evento no ano passado, ouvi que a quantidade de equipamentos é tão grande que o teto das lojas precisa ser reforçado para suportar o seu peso). Entretanto, creio que em pouco tempo o custo associado a essa inovação irá diminuir bastante e começaremos a ter exemplos similares aqui no Brasil.

Ainda mais invisível

Um tipo de experiência, um pouco mais futurista, associada ao pagamento invisível é aquela em que não precisamos nem nos preocupar em comprar determinados produtos. Com o advento da Internet das Coisas (Internet of Things, IoT), alguns tipos de transações financeiras serão realizados sem a intervenção de seres humanos. Geladeiras e despensas possuirão sensores capazes de detectar quando o leite ou o feijão está prestes a acabar e automaticamente farão o pedido e o pagamento ao site de e-commerce do supermercado preferido (“machine to machine payments”).

No Brasil, a nova rede de pagamentos instantâneos (PIX) deve impulsionar ainda mais essa evolução, pois oferecerá transferências em tempo real por um custo muito baixo, requisitos essenciais para redução da fricção do “fast money”.

O surgimento de novos tipos de e-wallets que fazem uso mais intenso de biometria, ou até mesmo com chips implantados no corpo, despertará preocupações pertinentes sobre privacidade e segurança.

Finalmente, o surgimento de novos tipos de e-wallets que fazem uso mais intenso de biometria, ou até mesmo com chips implantados no corpo, despertará preocupações pertinentes sobre privacidade e segurança. Porém, acredito que as novas regulamentações e a conscientização da sociedade limitarão a ocorrência de abusos e garantirão a punição a eventuais infratores. Como consequência, cartões, dinheiro em espécie e celulares como meios de pagamento terão o mesmo destino dos CDs/DVDs, telefones fixos e aparelhos de fax.

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Alexandre Pinto, autor desta coluna quinzenal no TecMundo, é diretor de Inovação e Novos Negócios da Matera e especialista em Open Innovation. Na empresa desde 2001, foi responsável pela criação da área de P&D e do seu ecossistema de parceiros. 

Fonte: Tecmundo